sábado, 21 de fevereiro de 2015

Em Seu Templo

    
"Depois disto desceu a Cafarnaum, Ele, e Sua mãe, e Seus discípulos, e ficaram ali não muitos dias. Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém." João 2:12 e 13. 
    Nessa jornada, uniu-Se Jesus a um grande grupo que ia de caminho para a capital. Ainda não havia anunciado publicamente Sua missão, e misturava-Se despercebido com o povo. Nessas ocasiões, a vinda do Messias, a que o ministério de João dera tanta preeminência, era muitas vezes o tema de conversação. Com vivo entusiasmo consideravam a esperança da grandeza nacional. Jesus sabia que essa esperança haveria de sofrer decepção, pois baseava-se em uma falsa compreensão das Escrituras. Com profundo zelo explicava Ele as profecias, e procurava despertar os homens para mais acurado estudo da Palavra de Deus. 
    Os guias judaicos haviam instruído o povo de que em Jerusalém deviam ser ensinados quanto ao culto a Deus. Ali, durante a semana da Páscoa, se reuniam em grande número, vindos de todas as partes da Palestina, e mesmo de terras distantes. Os pátios do templo enchiam-se de uma multidão promíscua. Muitos não podiam levar consigo os sacrifícios que deviam ser oferecidos em símbolo do grande Sacrifício. Para comodidade destes, compravam-se e vendiam-se animais no pátio exterior do templo. Ali se reunia toda espécie de gente para comprar suas ofertas. Ali se trocava todo o dinheiro estrangeiro pela moeda do santuário. 
    Todo judeu tinha por dever pagar anualmente meio siclo como "resgate da sua alma" (Êxo. 30:12-16); e o dinheiro assim obtido era empregado para manutenção do templo. Além disso, levavam-se grandes somas, como ofertas voluntárias, para serem depositadas no tesouro do templo. E exigia-se que todo dinheiro estrangeiro fosse trocado por uma moeda chamada o siclo do templo, a qual era aceita para o serviço do santuário. A troca do dinheiro dava lugar a fraude e extorsão, havendo descaído em desonroso tráfico, fonte de lucros para os sacerdotes. 
    Os mercadores exigiam preços exorbitantes pelos animais vendidos, e dividiam o proveito com os sacerdotes e principais, que enriqueciam assim à custa do povo. Ensinara-se aos adoradores que, se não oferecessem sacrifícios, as bênçãos de Deus não repousariam sobre seus filhos e sua terra. Assim era garantido elevado preço pelos animais; porque, depois de vir de tão longe, o povo não queria voltar para casa sem realizar o ato de devoção que ali o levara. 
    Grande era o número de sacrifícios oferecidos por ocasião da Páscoa, e avultadas as vendas no templo. A conseqüente confusão dava a idéia de uma ruidosa feira de gado, e não do sagrado templo de Deus. Ali se podiam ouvir ásperos ajustes de compras, o mugir do gado, o balir de ovelhas, o arrulho de pombos, de mistura com o tinir de moedas e violentas discussões. Tão grande era a confusão, que os sacerdotes eram perturbados, e as palavras dirigidas ao Altíssimo, afogadas pelo tumulto que invadia o templo. Os judeus orgulhavam-se extremamente de sua piedade. Regozijavam-se por causa de seu templo, e reputavam blasfêmia uma palavra proferida em desmerecimento do mesmo; eram muito rigorosos quanto à execução das cerimônias com ele relacionadas; o amor do dinheiro, porém, desfazia todos os escrúpulos. Mal se apercebiam de quão longe tinham sido levados do original desígnio do serviço instituído pelo próprio Deus. 
    Quando o Senhor descera sobre o monte Sinai, o lugar fora consagrado por Sua presença. Moisés recebeu ordens de pôr limites em volta do monte e santificá-lo, e a palavra do Senhor se fez ouvir em advertência: "Guardai-vos que não subais ao monte, nem toqueis o seu termo; todo aquele que tocar o monte certamente morrerá. Nenhuma mão tocará nele, porque certamente será apedrejado ou asseteado; quer seja animal, quer seja homem, não viverá." Êxo. 19:12 e 13. Assim foi ensinada a lição de que sempre que Deus manifesta Sua presença, o lugar é santo. As dependências do templo de Deus deviam ser consideradas sagradas. Na luta pelo ganho, porém, tudo isso se perdeu de vista. 
    Os sacerdotes e principais, chamados para ser representantes de Deus perante a nação, deviam ter corrigido os abusos do pátio do templo. Deviam haver dado ao povo um exemplo de integridade e compaixão. Em lugar de cuidar do próprio proveito, deviam ter considerado a situação e as necessidades dos adoradores, e estado prontos a ajudar os que não podiam comprar os sacrifícios exigidos. Mas assim não fizeram. A avareza lhes endurecera o coração. 
    Iam a essa festa pessoas que se achavam em sofrimento, em necessidade, em aflição. O cego, o coxo, o surdo, ali se achavam. Alguns eram levados em leitos. Iam muitos demasiado pobres para comprar a mais humilde oferta para o Senhor, pobres demais mesmo para comprar o alimento com que saciassem a própria fome. Estes ficavam grandemente desanimados com as declarações dos sacerdotes. Os sacerdotes gloriavam-se de sua piedade; pretendiam ser os guardas do povo; eram no entanto, faltos de simpatia e compaixão. O pobre, o doente, o moribundo, em vão suplicavam favor. Seus sofrimentos não despertavam piedade no coração dos sacerdotes. 
    Ao penetrar Jesus no templo, abrangeu toda a cena. Viu as desonestas transações. Viu a aflição do pobre, que julgava que, sem derramar sangue, não havia perdão para seus pecados. Viu o pátio exterior do Seu templo convertido em lugar de comércio profano. O sagrado recinto transformara-se em vasta praça de câmbio. 
    Cristo viu que era necessário fazer alguma coisa. Numerosas eram as cerimônias exigidas do povo, sem a devida instrução quanto ao sentido das mesmas. Os adoradores ofereciam seus sacrifícios, sem compreender que eram símbolos do único Sacrifício perfeito. E entre eles, não reconhecido nem honrado, achava-Se Aquele a quem prefiguravam todos os seus cultos. Ele dera instruções quanto às ofertas. Compreendia-lhes o valor simbólico, e via que estavam agora pervertidas e mal interpretadas. O culto espiritual estava desaparecendo rapidamente. Nenhum laço ligava os sacerdotes e principais ao seu Deus. A obra de Cristo era estabelecer um culto totalmente diverso. 
    Enquanto ali, de pé, nos degraus do pátio do templo, Cristo abrangeu com penetrante visão, a cena que estava perante Ele. Seu olhar profético penetra o futuro, e vê, não somente anos, mas séculos e gerações. Vê como sacerdotes e principais despojam o necessitado de seu direito, e proíbem que o evangelho seja pregado ao pobre. Vê como o amor de Deus seria ocultado aos pecadores, e os homens fariam de Sua graça mercadoria. Ao contemplar a cena, exprimem-se-Lhe na fisionomia indignação, autoridade e poder. A atenção do povo é para Ele atraída. Voltam-se para Ele os olhares dos que se acham empenhados no profano comércio. Não podem dEle despregar os olhos. Sentem-se que esse Homem lhes lê os mais íntimos pensamentos, e lhes descobre os ocultos motivos. Alguns tentam esconder o rosto, como se suas más ações lhes estivessem escritas no semblante, para serem perscrutadas por aqueles olhos penetrantes. 
    Silencia o tumulto. O som do tráfico e dos ajustes cessa. O silêncio torna-se penoso. Apodera-se da assembléia um sentimento de respeito. É como se estivessem citados perante o tribunal de Deus, para responder por seus atos. Olhando para Cristo, vêem a divindade irradiando através do invólucro humano. A Majestade do Céu está como o Juiz há de estar no derradeiro dia - não circundado agora da glória que O acompanhará então, mas com o mesmo poder de ler a alma. Seu olhar percorre rapidamente a multidão, abrangendo cada indivíduo. Seu vulto parece elevar-se acima deles, em imponente dignidade, e uma luz divina ilumina-Lhe o semblante. Fala, e Sua clara, retumbante voz - a mesma que, do Sinai, proclamara a lei que sacerdotes e principais ora transgridem - ouve-se ecoar através das arcadas do templo: "Tirai daqui estes, e não façais da casa de Meu Pai casa de venda." João 2:16. 
    Descendo silenciosamente, e erguendo o açoite de cordéis apanhado ao entrar no recinto, manda aos vendedores que se afastem das dependências do templo. Com zelo e severidade nunca dantes por Ele manifestados, derriba as mesas dos cambistas. Rola a moeda, ressoando fortemente no mármore do chão. Ninguém Lhe pretende questionar a autoridade. Ninguém ousa deter-se para apanhar o mal-adquirido ganho. Jesus não lhes bate com o açoite de cordéis, mas aquele simples açoite parece, em Suas mãos, terrível como uma espada flamejante. Oficiais do templo, sacerdotes, corretores e mercadores de gado, com suas ovelhas e bois, saem precipitadamente do lugar, com o único pensamento de escapar à condenação de Sua presença. 
    Um pânico percorre pela multidão, que se sente ofuscada por Sua divindade. Gritos de terror escapam-se de centenas de lábios desmaiados. Os próprios discípulos tremem. São abalados pelas palavras e maneiras de Jesus, tão diversas de Sua atitude habitual. Lembram-se de que está escrito a Seu respeito. "O zelo da Tua casa Me devorou." Sal. 69:9. Dentro em pouco a tumultuosa turba com as mercadorias é removida para longe do templo do Senhor. Os pátios ficam livres do comércio profano, e sobre a cena de confusão baixam silêncio e solenidade profundos. A  presença do Senhor, que outrora santificara o monte, tornou agora sagrado o templo erigido em Sua honra. 
    Com a purificação do templo, anunciou Jesus Sua missão como Messias. Aquele templo, erigido, para morada divina, destinava-se a ser uma lição objetiva para Israel e o mundo. Desde os séculos eternos era o desígnio de Deus que todos os seres criados, desde os luminosos e santos serafins até ao homem, fossem um templo para morada do Criador. Devido ao pecado, a humanidade cessou de ser o templo de Deus. Obscurecido e contaminado pelo pecado, o coração do homem não mais revelava a glória da Divindade. Pela encarnação do Filho de Deus, porém, cumpriu-se o desígnio do Céu. Deus habita na humanidade, e mediante a salvadora graça, o coração humano se torna novamente um templo. O Senhor tinha em vista que o templo de Jerusalém fosse um testemunho contínuo do elevado destino franqueado a toda alma. Os judeus, no entanto, não haviam compreendido a significação do edifício de que tanto se orgulhavam. Não se entregavam como templos santos para o divino Espírito. Os pátios do templo de Jerusalém, cheios do tumulto de um tráfico profano, representavam com exatidão o templo da alma, contaminado por paixões sensuais e pensamentos profanos. Purificando o templo dos compradores e vendilhões mundanos, Jesus anunciou Sua missão de limpar a alma da contaminação do pecado - dos desejos terrenos, das ambições egoístas, dos maus hábitos que a corrompem. "De repente virá ao Seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o anjo do concerto, a quem vós desejais; eis que vem, diz o Senhor dos Exércitos. Mas quem suportará o dia da Sua vinda? E quem subsistirá quando Ele aparecer? porque Ele será como o fogo dos ourives e como o sabão dos lavandeiros. E assentar-Se-á, afinando e purificando a prata; e purificará os filhos de Levi, e os afinará como ouro e como prata". Mal. 3:1-3. "Não sabeis vós que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo". I Cor. 3:16 e 17. Homem algum pode de si mesmo expulsar a turba má que tomou posse do coração. Unicamente Cristo pode purificar o templo da alma. Não forçará, porém, a entrada. Não vem ao templo do coração como ao de outrora; mas diz: "Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a Minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa". Apoc. 3:20. Ele virá, não somente por um dia; pois diz: "Neles habitarei, e entre eles andarei: ... e eles serão o Meu povo". II Cor. 6:16. 
"Subjugará as nossas iniqüidades, e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar". Miq. 7:19. Sua presença purificará e santificará a alma, de maneira que ela seja um santo templo para o Senhor, e uma "morada de Deus em Espírito". Efés. 2:21 e 22. 
    Dominados de terror, os sacerdotes e os principais haviam fugido do pátio do templo, e do olhar penetrante que lhes lia o coração. Em sua fuga, encontraram-se com outros que iam para o templo, e pediram-lhes que voltassem, contando-lhes o que tinham visto e ouvido. Cristo olhava para os homens a fugir, em compassiva piedade pelo temor deles, e por sua ignorância do que constituísse o verdadeiro culto. Viu, nessa cena, simbolizada a dispersão de todo o povo judeu por causa de sua maldade e impenitência. 
    E por que fugiam do templo os sacerdotes? Por que não defenderam sua posição? Aquele que lhes ordenava que se fossem era o filho de um carpinteiro, um pobre galileu, sem posição nem poder terrestre. Por que Lhe não resistiram? Por que deixaram o tão mal-adquirido ganho, e fugiram ao mando de uma pessoa de tão humilde aparência? 
    Cristo falava com a autoridade de um rei, e em Seu aspecto, e no tom de Sua voz havia alguma coisa a que eles não podiam resistir. À voz de comando compreenderam, como nunca dantes, sua verdadeira posição de hipócritas e roubadores. Quando a divindade irradiou através da humanidade, não viram apenas indignação na fisionomia de Cristo; perceberam o significado de Suas palavras. Sentiram-se como perante o trono do eterno Juiz, tendo sobre si Sua sentença para este século e a eternidade. Por algum tempo, ficaram convencidos de que Cristo era profeta; e muitos acreditaram ser o Messias. O Espírito Santo, como num relâmpago, lhes fez acudir à mente palavras dos profetas com respeito a Cristo. Render-se-iam a esta convicção? 
    Arrepender-se, não o queriam eles. Sabiam que se haviam despertado as simpatias de Cristo para com os pobres. Sabiam-se culpados de extorsão em seu trato com o povo. Como Cristo lhes penetrasse os pensamentos, aborreceram-nO. Sua pública repreensão humilhava-lhes o orgulho, e tinham ciúmes da crescente influência que ia conquistando entre o povo. Decidiram intimidá-Lo a declarar com que autoridade os expulsara, e quem Lha conferira.  
    Lenta e refletidamente, mas com ódio no coração, voltaram ao templo. Que mudança, porém, se operara durante sua ausência! Ao fugirem, haviam ficado atrás os pobres; e estes contemplavam agora a Jesus, cujo semblante exprimia amor e simpatia. Com olhos marejados de lágrimas, dizia às trêmulas criaturas que O cercavam: Não temas; Eu te livrarei, e tu Me glorificarás. Para isso vim ao mundo. 
    O povo comprimia-se diante dEle, dirigindo-Lhe insistentes e lastimosos apelos. Mestre, abençoa-me! Seus ouvidos escutavam a todo clamor. Com uma compaixão maior que a de uma terna mãe, inclinava-Se para os sofredores. Todos eram objeto de Sua atenção. Cada um era curado de qualquer moléstia que tivesse. Os mudos abriam os lábios em louvor; os cegos contemplavam o rosto de seu Restaurador. Alegrava-se o coração dos enfermos. 
    Ao passo que os sacerdotes e oficiais do templo testemunhavam essa grande obra, que revelação não era para eles o que lhes chegava aos ouvidos! O povo contava a história de seus padecimentos, das frustradas esperanças, dos dolorosos dias e noites insones. Quando a última centelha de esperança parecia extinta, Cristo os curara. O fardo era pesado, dizia um, mas encontrei um Ajudador. Ele é o Cristo de Deus, e devotarei minha vida a Seu serviço. Pais diziam aos filhos: Ele te salvou a vida; levanta a tua voz e bendize-O. A voz das crianças e a dos jovens, pais e mães, amigos e espectadores uniam-se em louvor. Esperança e alegria enchiam-lhes o coração. O espírito possuía-se de paz. Eram restaurados na alma e no corpo, e voltavam para casa proclamando por toda parte o incomparável amor de Jesus. 
    Na crucifixão, os que assim foram curados não se uniram à turba vil que exclamava: "Crucifica-O, crucifica-O". Suas simpatias eram para Jesus; pois Lhe haviam sentido a grande compaixão e o maravilhoso poder. Sabiam que era seu Salvador; pois lhes dera saúde física e espiritual. Escutaram as pregações dos apóstolos, e a entrada da Palavra de Deus em seu coração lhes dera entendimento. Tornaram-se instrumentos da misericórdia de Deus, de Sua salvação. 
    A multidão que fugira do templo, passado algum tempo, foi voltando devagar. Haviam-se recobrado em parte do terror que deles se apoderara, mas suas fisionomias exprimiam irresolução e timidez. Olhavam com pasmo as obras de Jesus, e ficavam convencidos de que nEle tinham cumprimento as profecias concernentes ao Messias. O pecado de profanação do templo cabia, em grande parte, aos sacerdotes. Fora por arranjos da parte deles     que o pátio se transformara em mercado. O povo era relativamente inocente. Foi impressionado pela divina autoridade de Jesus; mas para ele a influência dos sacerdotes e principais era suprema. Estes consideravam a missão de Cristo como uma inovação, e punham em dúvida Seu direito de interferir naquilo que era permitido por autoridades do templo. Ofenderam-se por haver sido interrompido o comércio, e sufocaram as convicções originadas pelo Espírito Santo. 
    Mais que quaisquer outros, deviam os sacerdotes e principais ter visto que Jesus era o ungido do Senhor; pois tinham nas próprias mãos os rolos que Lhe descreviam a missão, e sabiam que a purificação do templo era uma manifestação de poder sobre-humano. A despeito de aborrecerem a Jesus, não se podiam eximir ao pensamento de que fosse um profeta enviado por Deus, para restaurar a santidade do templo. Com uma deferência nascida desse temor, a Ele se dirigiram com a indagação: "Que sinal nos mostras para fazeres isto?" João 2:18. 
    Jesus lhes mostrara um sinal. Fazendo com que a luz brilhasse no coração deles, e realizando em sua presença as obras que o Messias devia efetuar, dera convincentes provas de Seu caráter. Ora, ao pedirem um sinal, respondeu-lhes por meio de uma parábola, mostrando que lhes lia a malevolência, e via a que ponto esta os levaria. "Derribai este templo", disse, "e em três dias o levantarei". João 2:19.  
    Estas palavras encerravam um duplo sentido. Ele não Se referia somente à destruição do templo judaico e do culto, mas a Sua própria morte - a destruição do templo de Seu corpo. Esta os judeus estavam já tramando. Quando os sacerdotes e principais voltaram ao templo, haviam-se proposto matar Jesus, livrando-se assim do perturbador. Ao apresentar-lhes Ele seus desígnios, porém, não O compreenderam. Tomaram-Lhe as palavras como se aplicando ao templo de Jerusalém, e exclamaram com indignação: "Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e Tu o levantarás em três dias?" Acharam então que Jesus lhes justificara a incredulidade, e confirmaram sua rejeição dEle. 
    Não era intenção de Jesus que Suas palavras fossem compreendidas no momento pelos incrédulos judeus, nem mesmo pelos discípulos. Sabia que seriam torcidas pelos inimigos, e voltadas contra Ele próprio. Em Seu julgamento, seriam apresentadas como acusação, sendo-Lhe, no Calvário, arremessadas como insulto. Explicá-las, no entretanto, seria dar a conhecer aos discípulos Seus sofrimentos, trazendo sobre eles uma dor que ainda não estavam aptos a suportar. E uma exposição delas seria desvendar prematuramente aos judeus o resultado de seus preconceitos e incredulidade. Já tinham entrado num caminho em que deliberadamente haviam de prosseguir, até que Ele fosse levado como ovelha ao matadouro. 
    Foi por amor dos que haviam de crer em Cristo que essas palavras foram proferidas. Ele sabia que seriam repetidas. Pronunciadas por ocasião da Páscoa, seriam levadas aos ouvidos de milhares, e a todas as partes do mundo. Depois de Ele haver ressuscitado dos mortos, o sentido delas se tornaria claro. Para muitos, seriam conclusiva prova de Sua divindade. 
    Devido a sua treva espiritual, os próprios discípulos de Jesus deixaram muitas vezes de Lhe compreender as lições. Muitas delas se tornaram claras, porém, em vista de acontecimentos posteriores. Quando Jesus já não andava com eles, Suas palavras lhes serviam de esteio ao coração. 
    No que se referia ao templo de Jerusalém, as palavras do Salvador: "Derribai este templo, e em três dias o levantarei", tinham mais profundo sentido do que o apreendido pelos ouvintes. Cristo era o fundamento e a vida do templo. Os cultos deste eram típicos do sacrifício do Filho de Deus. O sacerdócio fora estabelecido para representar o caráter mediador e a obra de Cristo. Todo o plano do culto sacrifical era uma representação da morte do Salvador para redimir o mundo. Não haveria eficácia nessas ofertas, quando o grande acontecimento a que por séculos haviam apontado, se viesse a consumar. 
    Uma vez que toda a ordem ritual era simbólica de Cristo, não tinha valor sem Ele. Quando os judeus selaram sua rejeição de Cristo, entregando-O à morte, rejeitaram tudo quanto dava significação ao templo e seus cultos. Sua santidade desaparecera. Estava condenado à destruição. Daquele dia em diante, as ofertas sacrificais e o serviço com elas relacionado eram destituídos de significado. Como a oferta de Caim, não exprimiam fé no Salvador. Condenando Cristo à morte, os judeus destruíram virtualmente seu templo. Quando Cristo foi crucificado, o véu interior do templo se rasgou em dois de alto a baixo, significando que o grande sacrifício final fora feito, e que o sistema de ofertas sacrificais cessara para sempre. 
    "Em três dias o levantarei". Por ocasião da morte do Salvador as potências das trevas pareciam prevalecer, e exultaram em sua vitória. Do fendido sepulcro de José, porém, saiu Jesus vitorioso. "Despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em Si mesmo". Col. 2:15. Pela virtude de Sua morte e ressurreição, tornou-Se o ministro do "verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem". Heb. 8:2. Foram homens que erigiram o tabernáculo judaico; homens construíram o templo; o santuário de cima, porém, do qual o terrestre era o símbolo, não foi construído por nenhum arquiteto humano. "Eis aqui o Homem cujo nome é Renovo; Ele mesmo edificará o templo do Senhor, e levará a glória, assentar-Se-á, e dominará no Seu trono". Zac. 6:12 e 13. 
    O serviço sacrifical que apontara a Cristo passou, mas os olhos dos homens voltaram-se para o sacrifício verdadeiro pelos pecados do mundo. O sacerdócio terrestre terminou; mas nós olhamos a Jesus, o ministro do novo concerto, e "ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel". Heb. 12:24. "O caminho do santuário não estava descoberto enquanto se conservava em pé o primeiro tabernáculo, ... mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, ... mas por Seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção". Heb. 9:8-12. 
    "Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles". Heb. 7:25. Conquanto o serviço houvesse de ser transferido do templo terrestre ao celestial; embora o santuário e nosso grande Sumo Sacerdote fossem invisíveis aos olhos humanos, todavia os discípulos não sofreriam com isso nenhum detrimento. Não experimentariam nenhuma falha em sua comunhão, nem enfraquecimento de poder devido à ausência do Salvador. Enquanto Cristo ministra no santuário em cima, continua a ser, por meio de Seu Espírito, o ministro da igreja na Terra. Ausente de nossos olhos, cumpre-se, entretanto, a promessa que nos deu ao partir: "Eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos". Mat. 28:20. Conquanto delegue Seu poder a ministros inferiores, Sua vitalizante presença permanece ainda em Sua igreja. 
    "Visto que temos um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus ... retenhamos firmemente a nossa confissão. Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-Se de nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemos pois com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno". Heb. 4:14-16. 
Abrazo!

Nas Bodas


   
 Jesus não começou Seu ministério por alguma grande obra perante o Sinédrio em Jerusalém. Numa reunião familiar, em pequenina vila galiléia, foi manifestado Seu poder para aumentar a alegria das bodas. Assim mostrou Sua simpatia para com os homens, e desejo de lhes proporcionar felicidade. Tentado, no deserto, bebera Ele próprio o cálice da aflição. Dali saíra para oferecer aos homens uma taça de graças celestiais, mediante Sua bênção que santificaria as relações da vida humana. 
    Do Jordão, voltara Jesus à Galiléia. Devia haver um casamento em Caná, pequena vila não distante de Nazaré; os noivos eram parentes de José e Maria; e, sabedor dessa reunião de família, Jesus Se dirigiu a Caná, sendo com os discípulos convidado para a festa. 
    Aí Se encontrou novamente com Sua mãe, de quem estivera separado por algum tempo. Maria ouvira falar na manifestação às margens do Jordão, quando do batismo dEle. As novas foram levadas a Nazaré, evocando novamente em seu espírito as cenas que por tantos anos ocultara no coração. Como todo o Israel, Maria fora profundamente comovida pela missão de João Batista. Bem se lembrava ela da profecia feita em seu nascimento. A ligação dele com Jesus, avivava-lhe novamente as esperanças. Mas também lhe haviam chegado notícias da misteriosa retirada de Jesus para o deserto, e sentia-se opressa por aflitivos pressentimentos. Desde o dia em que ouvira o anúncio do anjo, no lar de Nazaré, entesourara Maria todo sinal de que Jesus era o Messias. Sua doce e abnegada existência assegurava-lhe que Ele não podia ser outro senão o Enviado de Deus. Todavia, também lhe sobrevinham dúvidas e decepções, e ela anelara o tempo em que Sua glória se houvesse de manifestar. A morte a separara de José, que com ela partilhara do mistério do nascimento de Jesus. Não havia agora ninguém mais a quem pudesse confiar suas esperanças e temores. Os dois meses anteriores tinham sido muito dolorosos. Fora separada de Jesus, em cuja simpatia encontrava conforto; ponderava as palavras de Simeão: "Uma espada traspassará também a tua própria alma" (Luc. 2:35); recordava os três dias de angústia quando julgava Jesus para sempre perdido para ela; e era com ansiedade de coração que Lhe aguardava o regresso. 
    Por ocasião das bodas, encontrou-O, o mesmo Filho terno e serviçal. No entanto, não era o mesmo. Seu semblante mudara. Apresentava os vestígios da luta do deserto, e uma nova expressão de dignidade e poder testificava de Sua celestial missão. Achava-Se com Ele um grupo de homens moços, cujos olhos O seguiam com reverência, e que Lhe chamavam Mestre. Esses companheiros contaram a Maria o que tinham visto e ouvido por ocasião do batismo, e em outras partes. E concluíram declarando: "Havemos achado Aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas." João 1:45. 
    Ao reunirem-se os convidados, muitos pareciam preocupados com algum assunto de interesse absorvente. Um contido despertar domina a assistência. Pequenos grupos conversam entre si em tom vivo mas dominado, lançando olhares indagadores para o Filho de Maria. Ao ouvir esta o testemunho dos discípulos quanto a Jesus, alegrara-se com a certeza de não haverem sido vãs suas tão longamente acariciadas esperanças. Entretanto, teria ela sido mais que humana, não se lhe houvesse misturado a essa santa alegria um traço do natural orgulho de mãe amorosa. Ao ver os muitos olhares voltados para Jesus, anelava que Ele demonstrasse aos assistentes ser realmente o Honrado de Deus. Esperava que houvesse oportunidade de Ele operar um milagre diante deles. 
    Era costume, naqueles tempos, que as festas de casamento continuassem por vários dias. Verificou-se nessa ocasião, antes do fim da festa, haver-se esgotado a provisão de vinho. Isso causou muita perplexidade e desgosto. Era coisa fora do comum dispensar o vinho em ocasiões festivas, e a ausência do mesmo pareceria indicar falta de hospitalidade. Como parenta dos noivos, Maria ajudara nos preparativos da festa, e falou agora a Jesus, dizendo: "Não têm vinho". Essas palavras eram uma sugestão de que Ele poderia suprir a necessidade. Mas Jesus respondeu: "Mulher, que tenho eu contigo? ainda não é chegada a Minha hora". João 23 e 4. 
    Essa resposta, abrupta como nos possa parecer, não exprimia frieza nem descortesia. A maneira de o Salvador Se dirigir a Sua mãe, estava em harmonia com os costumes orientais. Era empregada para com pessoas a quem se desejava mostrar respeito. Todo ato da vida terrestre de Cristo estava em harmonia com o preceito dado por Ele próprio: "Honra a teu pai e a tua mãe". Êxo. 20:12. Na cruz, em Seu derradeiro ato de ternura para com Sua mãe, Jesus dirigiu-Se a ela da mesma maneira, ao confiá-la ao cuidado do mais amado discípulo. Tanto na festa nupcial como ao pé da cruz, o amor expresso no tom, no olhar e na maneira, era o intérprete de Sua palavras. 
    Em Sua visita ao templo, na infância, ao desvendar-se diante dEle o mistério de Sua obra, Cristo dissera a Maria: "Não sabeis que Me convém tratar dos negócios de Meu Pai?" Luc. 2:49. Essas palavras ferem a nota tônica de toda a Sua vida e ministério. Tudo estava subordinado a Sua obra, a grande obra de redenção para cujo cumprimento viera ao mundo. Agora, repetiu a lição. Havia risco de Maria olhar a suas relações com Jesus como lhe dando sobre Ele especial direito, bem como o de, até certo ponto, O dirigir em Sua missão. Ele lhe fora por trinta anos Filho obediente e amoroso, e Seu amor não mudara; agora, porém, Lhe cumpria tratar da obra do Pai. Como Filho do Altíssimo, e Salvador do mundo, laço algum terrestre O deve afastar de Sua missão, ou influenciar-Lhe o procedimento. Deve estar livre para fazer a vontade de Deus. Essa lição destina-se também a nós. Os direitos de Deus são superiores mesmo aos laços das relações humanas. Nenhuma atração terrestre nos deve desviar os pés da vereda que Ele nos manda trilhar. 
    A única esperança de redenção para nossa caída raça, está em Cristo; Maria só podia encontrar salvação mediante o Cordeiro de Deus. Não possuía em si mesma nenhum mérito. Seu parentesco com Jesus não a colocava para com Ele em posição diversa, espiritualmente, da de qualquer outra alma humana. Isso se acha indicado nas palavras do Salvador. Ele torna clara a distinção entre Sua relação para com ela como Filho do homem, e Filho de Deus. O laço de parentesco entre eles não a coloca, de maneira alguma, em pé de igualdade com Ele. 
    As palavras: "Ainda não é chegada a Minha hora", indicam que todo ato da vida de Cristo na Terra era cumprimento do plano que existira desde os dias da eternidade. Antes de vir à Terra, o plano jazia perante Ele, perfeito em todos os seus detalhes. Ao andar entre os homens, porém, era guiado passo a passo pela vontade do Pai. Não hesitava em agir no tempo designado. Com a mesma submissão, esperava até que houvesse chegado a oportunidade.  
    Ao dizer a Maria que Sua hora ainda não chegara, respondia Jesus ao inexpresso pensamento dela - à expectativa que, juntamente com seu povo, ela acariciara. Maria esperava que Ele Se revelasse como o Messias, e tomasse o trono de Israel. Mas o tempo não havia chegado. Não como Rei, mas como Homem de dores, e experimentado nos trabalhos, aceitara Jesus a sorte da humanidade.  
    Mas se bem que Sua mãe não possuísse conceito exato da missão de Cristo, nEle confiava implicitamente. A essa fé correspondeu Jesus. Foi para honrar a confiança de Maria, e fortalecer a fé dos discípulos, que realizou o primeiro milagre. Os discípulos haveriam de encontrar muitas e grandes tentações para a incredulidade. Para eles, as profecias haviam tornado claro, indiscutível, que Jesus era o Messias. Esperavam que os guias religiosos O recebessem com confiança ainda maior que a deles próprios. Declararam entre o povo as maravilhosas obras de Cristo e sua própria confiança na missão dEle, mas pasmaram e sentiram-se cruelmente decepcionados pela incredulidade, o preconceito profundamente arraigado e a inimizade para com Jesus, manifestados pelos sacerdotes e rabis. Os primeiros milagres do Salvador fortaleceram os discípulos para enfrentar a oposição. 
    Sem se desconcertar absolutamente com as palavras de Jesus, Maria disse aos que serviam à mesa: "Fazei tudo quando Ele vos disser". João 2:5. Assim fez ela o que podia para preparar o caminho para a obra de Cristo. 
    Ao lado da entrada estavam seis grandes talhas de pedra, e Jesus pediu aos servos que as enchessem d"agua. Assim foi feito. Então, como o vinho era necessário para uso imediato, disse: "Tirai agora, e levai ao mestre-sala". João 2:8. Em lugar da água com que haviam sido cheias as talhas, saiu vinho dali. Nem o mestre-sala nem os convidados, em geral, tinham percebido que a provisão de vinho se acabara. Provando o que os servos levaram, o mestre-sala achou-o superior a qualquer vinho que já tivesse provado, e muito diverso do que fora servido ao princípio da festa. Voltando-se para o noivo, disse: "Todo homem põe primeiro o vinho bom, e quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho".João 2:10. 
    Como os homens servem primeiro o vinho melhor, e depois o inferior, assim faz o mundo com seus dons. O que ele oferece pode agradar aos olhos e fascinar os sentido, mas se demonstra incapaz de satisfazer. O vinho se transforma em amargura, o espírito folgazão em tristeza. Aquilo que começara com cânticos e alegria, termina em fadiga e desgosto. Os dons de Cristo, porém, são sempre novos e sãos. A festa que provê para a alma não deixa nunca de proporcionar satisfação e alegria. Cada nova dádiva acrescenta a capacidade do que a recebe para apreciar e fruir as bênçãos do Senhor. Ele dá por graça. Não pode haver falta na provisão. Se permaneceis nEle, o fato de receberdes hoje um rico dom, garante a recepção amanhã, de um mais precioso ainda. As palavras de Cristo a Natanael exprimem a lei do trato de Deus com os filhos da fé. Com cada nova revelação de Seu amor, declara Ele ao coração que a recebe: "Crês? coisas maiores do que estas verás". João 1:50. 
    O dom de Cristo à festa nupcial, era um símbolo. A água representa o batismo em Sua morte; o vinho, o derramamento de Seu sangue pelos pecados do mundo. A água para encher as talhas foi levada por mãos humanas, mas unicamente a palavra de Cristo podia comunicar-lhe a virtude doadora de vida. O mesmo quanto aos ritos que indicam a morte do Salvador. Unicamente pelo poder de Cristo, operando pela fé, é que têm eficácia para nutrir a alma. 
    A palavra de Cristo forneceu ampla provisão para a festa. Da mesma maneira abundante é a provisão de Sua graça para apagar as iniqüidades dos homens, e renovar e suster a alma. 
    Na primeira festa a que assistiu com os discípulos, Jesus lhes deu o cálice que simbolizava Sua obra pela salvação deles. Na última ceia, tornou a dá-lo, na instituição do sagrado rito pelo qual Sua morte deve ser anunciada "até que venha". I Cor. 11:26. E a tristeza dos discípulos ao separar-se de seu Senhor, foi confortada com a promessa da reunião, pois Ele disse: "Desde agora, não beberei deste fruto da vide até aquele dia em que o beba de novo convosco no reino de Meu Pai". Mat. 26:29. 
    O vinho provido por Cristo para a festa, e o que Ele deu aos discípulos como símbolo de Seu próprio sangue, era o puro suco de uva. A esse se refere o profeta Isaías quando fala do novo vinho "num cacho", e diz: "Não o desperdices, pois há bênção nele". Isa. 65:8. 
    Fora Cristo que, no Antigo Testamento, dera aviso a Israel: "O vinho é escarnecedor e a bebida forte alvoroçadora; e todo aquele que neles errar nunca será sábio". Prov. 20:1. Ele nunca proveu tal bebida. Satanás tenta os homens à condescendência com apetites que lhes obscurecem a razão e entorpecem as percepções espirituais, mas Cristo nos ensina a subjugar a natureza inferior. Toda a Sua vida foi um exemplo de abnegação. Para vencer o poder do apetite, sofreu em nosso favor a mais dura prova que a humanidade poderia suportar. Foi Cristo que deu instruções para que João Batista não bebesse vinho nem bebida forte. Fora Ele que dera a mesma prescrição à mulher de Manoá. E proferiu uma maldição sobre o homem que chegasse a taça aos lábios do próximo. Cristo não contradiz Seus próprios ensinos. O vinho não fermentado que proveu para os seus convidados das bodas, era uma bebida sã e refrigerante. Seu efeito havia de pôr o gosto em harmonia com um apetite são. 
    Como os convidados, na festa, notassem a qualidade do vinho, fizeram-se indagações que levaram os servos a narrar o milagre. 
Os convivas ficaram, por algum tempo, demasiado surpreendidos para pensar nAquele que realizara a maravilhosa obra. Quando afinal O procuraram, verificou-se que Se retirara tão quieto, que nem os próprios discípulos haviam percebido. 
    A atenção dos presentes voltou-se então para os discípulos. Tiveram pela primeira vez a oportunidade de reconhecer-lhes a fé em Jesus. Contaram eles o que tinham visto e ouvido no Jordão, e acendeu-se em muitos corações a esperança de haver Deus despertado um libertador para Seu povo. As novas do milagre espalharam-se por toda aquela região, e foram levadas a Jerusalém. Com novo interesse, examinaram os sacerdotes e anciãos as profecias que indicavam a vinda de Cristo. Havia ansioso desejo de saber a missão desse novo mestre, que, de maneira tão despretensiosa, aparecia entre o povo. 
    O ministério de Cristo contrastava com o dos anciãos judeus. O cuidado deles, quanto à tradição e ao formalismo, destruíra toda verdadeira liberdade de pensamento e ação. Viviam em contínuo medo de contaminação. Para evitar contato com o "imundo", mantinham-se separados, não só dos gentios, mas da maior parte de seu próprio povo, não procurando beneficiá-lo, nem granjear-lhe a amizade. Por considerar sempre essas coisas, haviam impedido o desenvolvimento do próprio espírito e estreitado a esfera de sua existência. Seu exemplo animava o egoísmo e a intolerância em todas as classes do povo. 
    Jesus começou Sua obra de reforma, pondo-Se em íntima simpatia com a humanidade. Ao passo que mostrava a maior reverência para com a lei de Deus, censurava a pretensa piedade dos fariseus, e tentava libertar o povo dos regulamentos absurdos que o acorrentavam. Procurava derribar as barreiras que separavam as diversas classes sociais, a fim de unir os homens como filhos de uma só família. Sua presença nas bodas visava um passo na efetuação desse desígnio. 
    Deus dera a João Batista instruções para habitar no deserto, a fim de protegê-lo contra a influência dos sacerdotes e rabis, e prepará-lo para uma missão especial. A austeridade e isolamento de sua vida, porém, não eram um exemplo para o povo. O próprio João não ordenara a seus ouvintes que abandonassem seus anteriores deveres. Pediu-lhes que dessem demonstração de arrependimento pela fidelidade a Deus, no lugar em que Ele os chamara. 
    Jesus reprovava a condescendência própria em todas as suas formas, todavia era de natureza sociável. Aceitava a hospitalidade de todas as classes, visitando a casa de ricos e pobres, instruídos e ignorantes, procurando elevar-lhes os pensamentos das coisas comuns da vida, para as espirituais e eternas. Não consentia com o desperdício, e nem uma sombra de mundana leviandade Lhe manchou a conduta; todavia, achava prazer em cenas de inocente felicidade, e sancionava, com Sua presença, as reuniões sociais. Um casamento judaico era ocasião impressionante, e sua alegria não desagradava ao Filho do homem. Assistindo a essa festa, honrou Jesus o casamento como instituição divina. 
    Tanto no Antigo como no Novo Testamento, as relações conjugais são empregadas para representar a terna e sagrada união que existe entre Cristo e Seu povo. Ao espírito de Jesus, a alegria das bodas apontava ao regozijo daquele dia em que levará Sua esposa para o lar do Pai, e os remidos juntamente com o Redentor se assentarão para a ceia das bodas do Cordeiro. Diz Ele: "Como o noivo se alegra da noiva, assim Se alegrará de ti o Teu Deus." "Nunca mais te chamarão desamparada,... mas chamar-te-ão: O Meu prazer está nela; ... porque o Senhor Se agrada de ti." Isa. 62:5 e 4. "Ele Se deleitará em ti com alegria; calar-Se-á por Seu amor, regozijar-Se-á em ti com júbilo." Sof. 3:17. Ao ser concedida ao apóstolo João uma visão das coisas celestiais, escreveu ele: "E ouvi como que a voz de uma grande multidão, e como que a voz de muitas águas, e como que a voz de grandes trovões, que dizia: Aleluia: pois já o Senhor Deus todo-poderoso reina. Regozijemos, e alegremo-nos, e demos-Lhe glória; porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a Sua esposa se aprontou." "Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro." Apoc. 19:6, 7 e 9. 
    Jesus via em cada alma alguém a quem devia ser feito o chamado para Seu reino. Aproximava-Se do coração do povo, misturando-Se com ele como alguém que lhe desejava o bem-estar. Procurava-o nas ruas públicas, nas casas particulares, nos barcos, na sinagoga, às margens do lago e nas festas nupciais. Ia-lhe ao encontro em suas ocupações diárias, e manifestava interesse em seus negócios seculares. Levava Suas instruções às famílias, pondo-as assim, no próprio lar, sob a influência de Sua divina presença. A poderosa simpatia pessoal que dEle emanava, conquistava os corações. Retirava-Se muitas vezes para as montanhas, a fim de orar a sós, mas isso era um preparo para Seu labor entre os homens, na vida ativa. Desses períodos volvia para aliviar o enfermo, instruir o ignorante, e quebrar as cadeias aos cativos de Satanás. 
Era pelo contato pessoal e a associação, que Jesus preparava os discípulos. Ensinava-os, às vezes, sentado entre eles na encosta da montanha; outras, às margens do lago, ou caminhando em sua companhia, revelava-lhes os mistérios do reino de Deus. Não sermoneava, como fazem os homens hoje em dia. Sempre que os corações se achassem abertos para receber a divina mensagem, desdobrava as verdades do caminho da salvação. Não ordenava a Seus discípulos que fizessem isso ou aquilo, mas dizia: "Segue-Me". Nas jornadas através de campos e cidades, levava-os consigo, para que vissem como ensinava o povo. Vinculava-lhes os interesses aos Seus próprios, e eles se Lhe uniam na obra. 
    O exemplo de Cristo de ligar-Se aos interesses da humanidade deve ser seguido por todos quantos pregam Sua palavra, e todos quantos receberam o evangelho de Sua graça. Não devemos renunciar à comunhão social. Não nos devemos retirar dos outros. A fim de atingir todas as classes, precisamos ir ter com elas. Raramente nos virão procurar de moto próprio. Não somente do púlpito é tocado o coração dos homens pela verdade divina. Outro campo de labor existe, mais humilde, talvez, mas igualmente prometedor. Encontra-se no lar do humilde, e na mansão do grande; na mesa hospitaleira, e em reuniões de inocente entretenimento. 
    Como discípulos de Cristo, não nos misturemos com o mundo por mero gosto do prazer, para unir-nos a eles na tolice. Tais associações só podem trazer prejuízo. Nunca devemos sancionar o pecado por nossas palavras, ou ações, nosso silêncio ou nossa presença. Aonde quer que formos, devemos levar conosco Jesus, e revelar a outros que precioso é nosso Salvador. Os que buscam esconder sua religião, porém, ocultando-a dentro de muros de pedra, perdem valiosas oportunidades de fazer bem. Por meio das relações sociais, o cristianismo se põe em contato com o mundo. Todo o que recebeu divina iluminação, deve lançar luz sobre o caminho dos que não conhecem a Luz da vida. 
    Todos nos devemos tornar testemunhas de Jesus. O poder social, santificado pela graça de Cristo, deve ser aperfeiçoado em atrair almas para o Salvador. Demos a conhecer ao mundo que não nos achamos absorvidos egoistamente em nossos próprios interesses, mas desejamos que os outros participem das bênçãos e privilégios que gozamos. Mostremos-lhes que nossa religião não nos torna faltos de simpatia nem exigentes. Que todos quantos professam haver encontrado a Cristo, sirvam, como Ele fez, ao bem dos homens. 
    Nunca deveríamos dar ao mundo a falsa impressão de que os cristãos são uma gente triste, descontente. Se nossos olhos estiverem fixos em Jesus, veremos um compassivo Redentor, e havemos de receber luz de Seu semblante. Onde quer que reine o Seu Espírito, aí habita paz. E haverá alegria também, pois há uma calma e santa confiança em Deus. 
    Cristo Se compraz em Seus seguidores, quando mostram que, embora humanos, compartilham da Natureza divina. Não são estátuas, mas homens e mulheres animados. Seu coração, refrigerado pela graça divina, abre-se e expande-se ao Sol da Justiça. A luz que sobre eles incide, refletem-na sobre outros em obras iluminadas pelo amor de Cristo.
Abrazo! 


sábado, 11 de outubro de 2014

Achamos o Messias

    
João Batista estava agora pregando e batizando em Betábara, além do Jordão. Não longe desse lugar detivera Deus o curso do rio até que Israel houvesse passado. A pouca distância dali fora derribada a fortaleza de Jericó pelos exércitos celestiais. A memória desses acontecimentos foi por esse tempo reavivada, comunicando vivo interesse à mensagem do Batista. Aquele que operara tão maravilhosamente nos séculos passados, não manifestaria novamente Seu poder em prol da libertação de Israel? Tal era o pensamento que agitava o coração dos que se aglomeravam diariamente às margens do Jordão. 
    A pregação de João exercera tão profunda influência sobre o povo, que chamara a atenção das autoridades religiosas. O perigo de uma insurreição fez com que todo ajuntamento popular fosse considerado com suspeita por parte dos romanos, e tudo que indicasse um levante do povo despertava os temores dos governadores judeus. João não reconhecera a autoridade do Sinédrio em buscar a sanção do mesmo para sua obra; e reprovava príncipes e povo, fariseus e saduceus semelhantemente. No entanto, o povo o seguia ardorosamente. O interesse em sua obra parecia aumentar de contínuo. Conquanto João não condescendesse com eles, o Sinédrio considerava que, como mestre público, se achava sob sua jurisdição. 
    Esta organização era constituída de membros escolhidos dentre o sacerdócio, e dos principais e doutores da nação. O sumo sacerdote era em geral o presidente. Todos os seus membros deviam ser homens avançados em anos, se bem que não velhos; homens de saber, não somente versados na religião e história hebraicas, mas em conhecimentos gerais. Deviam ser isentos de defeito físico, casados, e pais, a fim de serem mais aptos que outros a ser humanos e compreensivos. Reuniam-se num aposento ligado ao templo de Jerusalém. Nos tempos da independência dos judeus, o Sinédrio era o supremo tribunal da nação, possuindo autoridade secular, da mesma maneira que eclesiástica. Conquanto agora subordinado aos governadores romanos, exercia ainda forte influência, tanto em assuntos civis como religiosos. 
    O Sinédrio não podia razoavelmente adiar uma investigação na obra do Batista. Havia alguns que se recordavam da revelação feita a Zacarias no templo e da profecia do pai, que indicava ser a criança o precursor do Messias. Em meio dos tumultos e mudanças de trinta anos, essas coisas haviam sido em grande parte esquecidas. Eram agora relembradas pelo despertar em torno do ministério de João Batista. 
    Havia muito desde que Israel tivera um profeta, desde que se testemunhara uma reforma como a que se operava agora. A exigência quanto à confissão do pecado parecia nova e assustadora. Muitos dentre os guias não iam ouvir os apelos e censuras de João, não viessem a ser levados a revelar os segredos da própria vida. Todavia, a pregação dele era um positivo anúncio do Messias. Era bem conhecido que as setenta semanas da profecia de Daniel, abrangendo a vinda do Messias, se achavam quase no fim; e todos estavam ansiosos por partilhar daquela era de glória nacional, então esperada. Tal era o entusiasmo popular, que o Sinédrio seria em breve forçado a rejeitar, ou a sancionar a obra de João. A influência deles sobre o povo já decrescia. Estava-se tornando uma questão séria, a maneira por que manteriam sua posição. Na esperança de chegar a qualquer resultado, enviaram ao Jordão uma delegação de sacerdotes e levitas, a fim de conferenciarem com o novo mestre. 
    Ao aproximarem-se os delegados, estava reunida uma multidão, ouvindo-lhe a palavra. Com ar de autoridade destinado a impressionar o povo e inspirar a deferência do profeta, chegaram os altivos rabis. Com um movimento de respeito, quase de temor, a multidão abriu passagem. No orgulho da posição e do poder, os grandes homens, com ricas vestimentas, postaram-se perante o profeta no deserto. 
    "Quem és tu?" indagaram. 
    Sabendo o pensamento deles, João respondeu: "Eu não sou o Cristo". 
    "Então quê? És tu Elias?" 
    "Não sou". 
    "És tu profeta?" 
    "Não". 
    "Quem és? para que demos resposta àqueles que nos enviaram; que dizes tu de ti mesmo?" 
    "Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías". João 1:19-23. 
    A escritura a que João se referiu é aquela bela profecia de Isaías: "Consolai, consolai o Meu povo, diz o vosso Deus. Falai benignamente a Jerusalém, e bradai-lhe que já a sua malícia é acabada, que a sua iniqüidade está expiada. ... Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor: endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Todo vale será exaltado, e todo monte e todo outeiro serão abatidos: e o que está torcido se endireitará, e o que é áspero se aplainará. E a glória do Senhor se manifestará, e toda carne juntamente verá". Isa. 40:1-5. 
    Antigamente, quando um rei jornadeava pelas partes menos freqüentadas de seu domínio, um grupo de homens era enviado à frente do carro real, para aplainar os lugares acidentados, encher as depressões, a fim de o rei poder viajar com segurança, e sem obstáculos. Esse costume é empregado pelo profeta para ilustrar a obra do evangelho. "Todo vale será exaltado, e todo o monte e todo outeiro serão abatidos". Isa. 40:4. Quando o Espírito de Deus, com Seu maravilhoso poder vivificante, toca a alma, abate o orgulho humano. Prazeres, posições e poder mundanos aparecem como sem valor. "Os conselhos e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus" (II Cor. 10:5) são derribados; todo pensamento é levado cativo "à obediência de Cristo". Então, a humildade e o abnegado amor, tão pouco apreciados entre os homens, são exaltados como as únicas coisas de valor. Esta é a obra do evangelho, do qual a de João era uma parte. 
    Os rabis continuaram suas interrogações: "Por que batizas pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?" João 1:25. As palavras "o profeta" referiam-se a Moisés. Os judeus inclinavam-se a crer que Moisés ressuscitaria, e seria levado para o Céu. Não sabiam que já fora ressuscitado. Quando o Batista começara o ministério, muitos pensaram que talvez fosse o profeta Moisés, ressuscitado; pois parecia possuir inteiro conhecimento das profecias e da história de Israel. 
    Acreditava-se também que, antes da vinda do Messias, Elias apareceria pessoalmente. Essa esperança enfrentou João em sua negativa; suas palavras tinham, porém, mais profundo sentido. Jesus disse posteriormente, referindo-Se a João: "Se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir". Mat. 11:14. João veio no espírito e poder de Elias, para fazer uma obra idêntica à daquele profeta. Houvessem-no recebido os judeus, e ela teria sido realizada em favor deles. Mas não lhe receberam a mensagem. Para eles João não foi Elias. Não podia realizar em seu benefício a missão que viera cumprir. Muitos dos que se achavam reunidos no Jordão, haviam estado presentes quando do batismo de Jesus; o sinal dado, porém, não fora manifesto senão a poucos dentre eles. Durante os precedentes meses do ministério do Batista, muitos se tinham recusado a atender ao chamado ao arrependimento. Haviam assim endurecido o coração e entenebrecido o entendimento. Quando o Céu deu testemunho de Jesus, no Seu batismo, não o perceberam. Os olhos que nunca se haviam volvido com fé para Aquele que é invisível, não contemplaram a revelação da glória de Deus; os ouvidos que lhe tinham escutado a voz, não ouviram as palavras de testemunho. O mesmo se dá agora. Freqüentemente a presença de Cristo e dos anjos ministradores se manifesta nas assembléias do povo e, no entanto, muitos há que o não sabem. Nada percebem de extraordinário. A alguns, porém, é revelada a presença do Salvador. Paz e alegria lhes animam o coração. São confortados, animados, abençoados. 
    Os emissários de Jerusalém haviam perguntado a João: "Por que batizas?" (João 1:25) e esperavam a resposta. Subitamente, ao percorrer seu olhar a multidão, arderam-se-lhe os olhos, a fisionomia iluminou-se, o ser inteiro foi-lhe agitado de profunda emoção. Estendendo a mão, exclamou: "Eu batizo com água; mas no meio de vós está Alguém a quem vós não conheceis. Este é Aquele que vem após mim, que foi antes de mim, do qual eu não sou digno de desatar a correia da alparca." João 1:26 e 27. 
    Era positiva e inequívoca a mensagem a ser levada de volta ao Sinédrio. As palavras de João não se podiam aplicar a nenhum outro senão ao longamente Prometido. O Messias Se achava entre eles! Sacerdotes e principais olharam em torno, com assombro, na esperança de descobrir Aquele de quem João falara. Ele, porém, não era distinguível entre a multidão. 
    Quando, por ocasião do batismo de Jesus, João O designara como o Cordeiro de Deus, nova luz foi projetada sobre a obra do Messias. O espírito do profeta foi dirigido às palavras de Isaías: "Como um cordeiro foi levado ao matadouro." Isa. 53:7. Durante as semanas seguintes, João estudou, com novo interesse, as profecias e os ensinos quanto ao serviço sacrifical. Não distinguia claramente os dois aspectos da obra de Cristo - como vítima sofredora e vitorioso Rei - mas viu que Sua vinda tinha significação mais  profunda do que lhe haviam percebido os sacerdotes ou o povo. Ao ver Cristo entre a multidão, de volta do deserto, esperou confiantemente que Ele desse ao povo um sinal de Seu verdadeiro caráter. Aguardava quase com impaciência ouvir o Salvador declarar Sua missão; no entanto nenhuma palavra foi proferida, não foi dado nenhum sinal. Jesus não correspondeu ao anúncio do Batista a Seu respeito, mas misturou-Se com os discípulos de João, não dando nenhum testemunho visível de Sua obra especial, nem tomando nenhuma providência para Se fazer notado. 
    No dia seguinte, João viu Jesus, que para ele Se dirigia. Com a glória de Deus a repousar sobre ele, João estende a mão, declarando: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Este é Aquele do qual eu disse: Após mim vem um Varão que foi antes de mim;... e eu não O conhecia; mas, para que fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água.... Vi o Espírito descer do céu como uma pomba, e repousar sobre Ele. E eu não O conhecia, mas O que me mandou a batizar com água, Esse me disse: Sobre Aquele que vires descer o Espírito, e sobre Ele repousar, Esse é O que batiza com o Espírito Santo. E eu vi, e tenho testificado que Este é o Filho de Deus." João 1:29-34. 
    Era esse o Cristo? Com respeito e curiosidade olhou o povo Àquele de quem se acabava de declarar ser o Filho de Deus. Haviam sido profundamente comovidos pelas palavras de João. Ele lhes falara em nome de Deus. Tinham-no escutado dia a dia, ao reprovar-lhes os pecados, e de dia para dia neles se fortalecera a convicção de ser ele enviado pelo Céu. Mas quem era Esse, maior que João Batista? Não havia em Seu trajar coisa alguma que indicasse posição. Era, na aparência, um personagem simples, vestido, como eles, nos humildes trajes dos pobres. 
    Havia entre a multidão alguns que, por ocasião do batismo de Cristo, tinham testemunhado a glória divina, e ouvido a voz de Deus. Desde então, porém, mudara grandemente a aparência do Salvador. Em Seu batismo, tinham-Lhe visto o semblante transfigurado à luz do Céu; agora, pálido, esgotado, emagrecido, ninguém O reconhecera senão o profeta João. 
    Ao olhar o povo para Ele, no entanto, viram uma fisionomia em que se uniam a divina compaixão e o poder consciente. Toda a expressão do olhar, todo traço do semblante, assinalava-se pela humildade, e exprimia indizível amor. Parecia circundado duma atmosfera de influência espiritual. Ao passo que Suas  maneiras eram suaves e despretensiosas, imprimia nos homens um sentimento de poder que, embora oculto, não podia inteiramente velar. Era esse Aquele por quem Israel tão longamente esperava?  
    Jesus veio em pobreza e humildade, para que pudesse ser nosso exemplo, ao mesmo tempo que nosso Redentor. Houvesse aparecido com pompa real, e como poderia ter ensinado a humildade? como poderia haver apresentado tão incisivas verdades como as do sermão da montanha? Onde estaria a esperança dos humildes da vida, houvesse Jesus vindo habitar como rei entre os homens? 
    Para a multidão, no entanto, parecia impossível que Aquele que era designado por João Se pudesse relacionar com suas elevadas antecipações. Assim, muitos ficaram decepcionados e grandemente perplexos. 
    As palavras que os sacerdotes e rabis tanto desejavam ouvir, de que Jesus havia de restaurar então o reino a Israel, não foram proferidas. Por um rei assim haviam eles esperado ansiosamente; tal rei estavam prontos a receber. Mas um que buscasse estabelecer-lhes no coração um reino de justiça e paz, não aceitariam.  
    No dia seguinte, enquanto dois discípulos estavam ao seu lado, João viu novamente Jesus entre o povo. O rosto do profeta iluminou-se outra vez com a glória do Invisível, ao exclamar: "Eis aqui o Cordeiro de Deus". Estas palavras fizeram pulsar o coração dos discípulos. Não as compreenderam plenamente. Que significaria o nome que João Lhe dera - "o Cordeiro de Deus"? O próprio João não as explicara. 
    Deixando João, foram em busca de Jesus. Um deles era André, o irmão de Simão; o outro, João evangelista. Foram estes os primeiros discípulos de Jesus. Movidos de irresistível impulso, seguiram a Jesus - ansiosos de falar-Lhe, todavia respeitosos e em silêncio, abismados na assombrosa significação da idéia: "É esse o Messias?" 
    Jesus sabia que os discípulos O estavam seguindo. Eram as primícias de Seu ministério, e o coração do divino Mestre alegrou-se ao corresponderem essas almas a Sua graça. No entanto, voltando-Se, perguntou apenas: "Que buscais?" João 1:38. Queria deixá-los em liberdade de voltar atrás, ou de falar de seus desejos. 
    De um único desígnio tinham eles consciência. Uma só era presença que lhes enchia o pensamento. Exclamaram: "Rabi, onde moras?" João 1:38. Numa breve entrevista à beira do caminho, não podiam receber aquilo por que ansiavam. Desejavam estar a sós com Jesus, sentar-se-Lhe aos pés e ouvir-Lhe as palavras.  Ele lhes disse: "Vinde, e vede. Foram, e viram onde morava, e ficaram com Ele aquele dia". João 1:39. 
    Houvessem João e André possuído o incrédulo espírito dos sacerdotes e principais, e não se teriam encontrado como discípulos aos pés de Jesus. Teriam dEle se aproximado como críticos, para Lhe julgar as palavras. Muitos cerram assim a porta às mais preciosas oportunidades. Assim não fizeram esses primeiros discípulos. Haviam atendido ao chamado do Espírito Santo na pregação de João Batista. Então reconheceram a voz do Mestre celestial. As palavras de Jesus foram para eles cheias de novidade, verdade e beleza. Divina luz foi projetada sobre o ensino das Escrituras do Antigo Testamento. Os complexos temas da verdade apareceram sob nova luz. 
    É contrição e fé e amor que habilitam a alma a receber sabedoria do Céu. Fé que opera por amor é a chave do conhecimento, e todo que ama "conhece a Deus". I João 4:7. 
    O discípulo João era homem de fervorosa e profunda afeição, ardente, se bem que contemplativo. Começara a discernir a glória de Cristo - não a pompa mundana e o poder que fora ensinado a esperar, mas "a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade". João 1:14. Absorveu-se na contemplação do assombroso tema. 
    André buscou comunicar o júbilo que lhe enchia o coração. Indo à procura de Simão, seu irmão, exclamou: "Achamos o Messias". João 1:41. Simão não esperou segundo convite. Também ele ouvira a pregação de João Batista, e apressou-se em ir ter com o Salvador. Os olhos de Jesus pousaram nele, lendo-lhe o caráter e a história. Sua natureza impulsiva, o coração amorável e compassivo, a ambição e confiança próprias, a história de sua queda e arrependimento, seus labores e a morte de mártir - o Salvador leu tudo, e disse: "Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas (quer quer dizer Pedro). 
    "No dia seguinte quis Jesus ir à Galiléia, e achou a Filipe, e disse-lhe: Segue-Me." João 1:42 e 43. Filipe obedeceu à ordem, tornando-se também, desde logo, obreiro de Cristo. 
    Filipe chamou a Natanael. Este se encontrava entre a multidão quando o Batista designara Jesus como o Cordeiro de Deus. Ao olhar Natanael para Jesus, ficou decepcionado. Poderia esse homem que apresentava os vestígios da labuta e da pobreza, ser o Messias? Entretanto, não se podia decidir a rejeitar a Jesus; pois a mensagem do Batista lhe infudira convicção.  Ao tempo em que Filipe o chamou, Natanael se havia retirado para um bosque sossegado, a fim de meditar sobre o anúncio de João, e as profecias concernentes ao Messias. Orou para que se Aquele que João anunciara fosse o libertador, isso lhe fosse dado a conhecer, e o Espírito Santo repousou sobre ele com a certeza de que Deus visitara Seu povo, levantando-lhes um poder salvador. Filipe sabia que seu amigo estava examinando as profecias, e enquanto Natanael orava sob uma figueira, descobriu-lhe o retiro. Muitas vezes haviam orado juntos nesse isolado lugar, ocultos pela folhagem. 
    A mensagem: "Havemos achado Aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas", pareceu a Natanael uma resposta direta a sua oração. Mas Filipe tinha ainda fé vacilante. Acrescentou, duvidoso: "Jesus de Nazaré, filho de José." Novamente surgiu o preconceito no coração de Natanael. Exclamou: "Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?" 
    Filipe não entrou em discussão. Disse: "Vem, e vê. Jesus viu Natanael vir ter com Ele, e disse dele: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo"! Surpreendido, exclamou Natanael: "De onde me conheces Tu? Jesus respondeu, e disse: Antes que Filipe te chamasse, te vi Eu, estando tu debaixo da figueira." 
    Foi suficiente. O divino Espírito que dera testemunho a Natanael em sua solitária oração sob a figueira, falou-lhe agora nas palavras de Jesus. Conquanto em dúvida, e de algum modo cedendo ao preconceito, Natanael fora ter com Cristo, possuído do sincero anelo de conhecer a verdade, e agora seu desejo foi satisfeito. Sua fé foi além da daquele que o levara a Jesus. Respondeu: "Rabi, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel." João 1:45 a 49. 
    Se Natanael houvesse confiado na direção dos rabis, nunca haveria encontrado a Jesus. Foi vendo e julgando por si mesmo, que se tornou discípulo. Assim acontece no caso de muitos hoje em dia, a quem o preconceito impede de aceitar o bem. Quão diverso seria o resultado, viessem eles e vissem! 
    Enquanto confiar na guia da autoridade humana, ninguém chegará a um salvador conhecimento da verdade. Como Natanael, necessitamos estudar por nós mesmos a Palavra de Deus, e orar pela iluminação do Espírito Santo. Aquele que viu Natanael debaixo da figueira, ver-nos-á no lugar secreto da oração. Anjos do mundo da luz acham-se ao pé daqueles que, em humildade, buscam a guia divina. 
    Com a vocação de João, André e Simão, Filipe e Natanael, começou o fundamento da igreja cristã. João dirigiu dois de seus discípulos a Cristo. Então, um deles, André, achou a seu irmão, e chamou-o para o Salvador. Foi logo chamado Filipe, e este foi em busca de Natanael. Esses exemplos nos devem ensinar a importância do esforço pessoal, de fazer apelos diretos a nossos parentes, amigos e vizinhos. Existem pessoas que, durante uma existência, têm professado estar relacionadas com Cristo, e todavia nunca fizeram um esforço pessoal para levar uma alma sequer ao Salvador. Deixam todo o trabalho ao ministro. Este pode ser apto para sua vocação, mas não lhe é possível fazer aquilo que Deus deixou aos membros da igreja. 
    Muitos há que necessitam do serviço de amoráveis corações cristãos. Têm-se imergido na ruína muitos que poderiam ter sido salvos, houvessem seus vizinhos, homens e mulheres comuns, se esforçado em benefício deles. Muitos há à espera de que alguém se lhes dirija pessoalmente. Na própria família, na vizinhança, na cidade em que residimos, há trabalho para fazermos como missionários de Cristo. Se somos cristãos, essa obra será nosso deleite. Mal está uma pessoa convertida, nasce dentro dela o desejo de tornar conhecido a outros que precioso amigo encontrou em Jesus. A salvadora e santificadora verdade não lhe pode ficar fechada no coração. 
    Todos quantos se consagram a Deus, podem ser portadores de luz. Deus os torna instrumentos Seus para comunicar a outros as riquezas de Sua graça. Sua promessa é: "E a elas, e aos lugares ao redor do Meu outeiro, Eu porei por bênção; e farei descer a chuva a seu tempo; chuvas de bênçãos serão." Ezeq. 34:26. 
    Filipe disse a Natanael: "Vem, e vê." João 1:46. Não lhe pediu que aceitasse outro testemunho, mas que fosse a Cristo por si mesmo. Agora, que Jesus subiu ao Céu, Seus discípulos são Seus representantes entre os homens, e um dos meios mais eficazes de conquistar almas para Ele, é exemplificar-Lhe o caráter na vida diária. Nossa influência sobre outros não depende tanto do que dizemos, mas do que somos. Os homens podem combater ou desafiar a nossa lógica, podem resistir a nossos apelos; mas a vida de amor desinteressado é um argumento que não pode ser contradito. A vida coerente, caracterizada pela mansidão de Cristo, é uma força no mundo. 
    O ensino de Cristo era o resultado de firme convicção e experiência, e os que dEle aprendem se tornam mestres de uma ordem divina. A Palavra de Deus falada por uma pessoa santificada por ela, tem poder comunicador de vida, que a torna atrativa aos que a escutam, convencendo-os de que é uma divina realidade. Quando alguém recebeu a verdade em amor, isso se tornará manifesto na persuasão de suas maneiras e nos tons de sua voz. Torna conhecido o que ele próprio ouviu, viu e manuseou da palavra da vida, a fim de outros poderem partilhar com ele mediante o conhecimento de Cristo. Seu testemunho, de lábios tocados com a brasa viva do altar, é verdade para o coração apto a receber, e opera a santificação do caráter. 
    E aquele que procura comunicar luz aos outros, será ele próprio abençoado. "Chuvas de bênçãos serão." "O que regar também será regado." Prov. 11:25. Deus poderia haver realizado Seu desígnio de salvar pecadores sem o nosso auxílio; mas a fim de desenvolvermos caráter semelhante ao de Cristo, é-nos preciso partilhar de Sua obra. A fim de participar da alegria dEle - a alegria de ver almas redimidas por Seu sacrifício - devemos tomar parte em Seus labores para redenção delas. 
    A primeira expressão de fé da parte de Natanael, soou como música aos ouvidos de Jesus. E Ele "respondeu, e disse-lhe: Porque te disse: Vi-te debaixo da figueira, crês? coisas maiores do que estas verás". O Salvador antecipava com alegria Sua obra de pregar boas novas aos mansos, restaurar os contritos de coração e proclamar liberdade aos cativos de Satanás. Ao pensamento das preciosas bênçãos que trouxera aos homens, Jesus acrescentou: "Na verdade, na verdade vos digo que daqui em diante vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem." João 1:50 e 51. 
    Com isso, Cristo virtualmente diz: nas margens do Jordão os céus se abriram, e o Espírito desceu como pomba sobre Mim. Aquela cena não era senão um testemunho de que Eu sou o Filho de Deus. Se crerdes em Mim como tal, vossa fé será vivificada. Vereis que os céus se acham abertos, e nunca se hão de fechar. Eu os abri a vós. Os anjos de Deus estão subindo, levando as orações dos necessitados e aflitos ao Pai em cima, e descendo, trazendo bênçãos e esperança, ânimo, auxílio e vida aos filhos dos homens. 
    Os anjos de Deus estão sempre indo da Terra ao Céu e do Céu à Terra. Os milagres de Cristo pelos aflitos e sofredores, foram operados pelo poder de Deus através do ministério dos anjos. E é por meio de Cristo, pelo ministério de Seus mensageiros celestiais, que toda bênção nos advém de Deus. Tomando sobre Si a humanidade, nosso Salvador une Seus interesses aos dos caídos filhos de Adão, ao passo que mediante Sua divindade, lança mão do trono de Deus. E assim Cristo é o mediador da comunicação dos homens com Deus, e de Deus com os homens. 

Abrazo!

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A Vitória


    "Então o diabo O transportou à cidade santa, e colocou-O sobre o pináculo do templo, e disse-Lhe: Se Tu és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo; porque está escrito: Que aos Seus anjos dará ordem a Teu respeito; e tomar-Te-ão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra." Mat. 4:5 e 6. 
    Julga Satanás haver agora enfrentado Jesus mesmo em Seu terreno. O próprio astuto inimigo apresenta palavras procedentes da boca de Deus. Parece ainda um anjo de luz, e mostra claramente estar familiarizado com as Escrituras, entendendo a significação do que está escrito. Como Jesus usara anteriormente a Palavra de Deus para apoiar Sua fé, o tentador agora a emprega para corroborar seu engano. Pretende ter estado apenas provando a fidelidade de Jesus, louvando-Lhe agora a firmeza. Como o Salvador manifestou confiança em Deus, Satanás insiste com Ele para que dê outro testemunho de Sua fé. 
    Mas novamente a tentação é introduzida com a insinuação de desconfiança: "Se Tu és o Filho de Deus." Mat. 4:6. Cristo foi tentado a responder ao "se"; absteve-Se, porém, da mais leve aceitação da dúvida. Não poria em risco Sua vida para dar a Satanás uma prova.     O tentador pensava aproveitar-se da humanidade de Cristo, e incitou-O à presunção. Mas ao passo que pode instigar, não lhe é possível forçar ao pecado. Disse a Jesus: "Lança-Te de aqui abaixo", sabendo que O não podia lançar; pois Deus Se interporia para livrá-Lo. Tampouco poderia o inimigo forçar Jesus a Se lançar. A menos que Cristo consentisse na tentação, não poderia ser vencido. Nem todo o poder da Terra ou do inferno O poderia forçar no mínimo que fosse a Se apartar da vontade de Seu Pai. 
    O tentador jamais nos poderá compelir a praticar o mal. Não pode dominar as mentes, a menos que se submetam a seu controle. A vontade tem que consentir, a fé largar sua segurança em Cristo, antes que Satanás possa exercer domínio sobre nós. Mas todo desejo pecaminoso que nutrimos lhe proporciona um palmo de terreno. Todo ponto em que deixamos de satisfazer à norma divina, é uma porta aberta pela qual pode entrar para nos tentar destruir. E todo fracasso ou derrota de nossa parte, dá-lhe ocasião de acusar a Cristo. 
    Quando Satanás citou a promessa: "Aos Seus anjos dará ordem a Teu respeito" (Mat. 4:6), omitiu as palavras: "para Te guardarem em todos os Teus caminhos" (Sal. 91:11); isto é, em todos os caminhos da escolha de Deus. Jesus recusou sair da vereda da obediência. Conquanto manifestasse perfeita confiança em Seu Pai, não Se colocaria, sem que isso Lhe fosse ordenado, em situação que tornasse necessária a interposição do Pai para O salvar da morte. Não forçaria a Providência a vir em Seu socorro, deixando assim de dar ao homem um exemplo de confiança e submissão.  
    Jesus declarou a Satanás: "Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus". Mat. 4:7. Essas palavras foram ditas por Moisés aos filhos de Israel, quando tinham sede no deserto, e pediram que Moisés lhes desse água, exclamando: "Está     o Senhor no meio de nós, ou não?" Êxo. 17:7. Deus operara maravilhas por eles; todavia, em aflição, dEle duvidaram, e exigiram demonstrações de que estava com eles. Procuraram, em sua incredulidade, pô-Lo à prova. E Satanás estava incitando Cristo a fazer a mesma coisa. Deus já tinha testificado que Cristo era Seu Filho; pedir agora sinal de ser Ele o Filho de Deus, seria pôr à prova a Palavra divina - tentando-O. E dar-se-ia o mesmo quanto a pedir o que Deus não havia prometido. Manifestaria desconfiança, e estaria realmente provando-O ou tentando-O. Não devemos apresentar ao Senhor nossas petições para provar se Ele cumpre Sua palavra, mas porque as cumpre; não para provar que Ele nos ama, mas porque nos ama. "Sem fé é impossível agradar-Lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe, e que é galardoador dos que O buscam". Heb. 11:6. 
    Mas a fé não é de maneira nenhuma aliada à presunção. Somente o que tem verdadeira fé está garantido contra a presunção. Pois presunção é a falsificação da fé, operada por Satanás. A fé reclama as promessas de Deus, e produz frutos de obediência. A presunção também reclama as promessas, mas serve-se delas como fez Satanás, para desculpar a transgressão. A fé teria levado nossos primeiros pais a confiar no amor de Deus, e obedecer-Lhe aos mandamentos. A presunção os levou a transgredir-Lhe a lei, crendo que Seu grande amor os salvaria da conseqüência de seu pecado. Não é ter fé pretender o favor do Céu, sem cumprir as condições sob as quais é concedida a misericórdia. A fé genuína baseia-se nas promessas e providências das Escrituras. 
    Muitas vezes quando Satanás falhou em incitar desconfiança, consegue êxito em nos levar à presunção. Se consegue pôr-nos desnecessariamente no caminho da tentação, sabe que tem a vitória. Deus há de guardar todos quantos andam no caminho da obediência; apartar-se dela, porém, é arriscar-se no terreno de Satanás. Aí cairemos por certo. O Salvador nos ordena: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação". Mar. 14:38. A meditação e a oração nos guardariam de nos precipitar, sem ser solicitados, ao encontro do perigo, e seríamos assim salvos de muitas derrotas. 
    Entretanto, não devemos perder o ânimo quando assaltados pela tentação. Freqüentemente, quando colocados em situação probante, duvidamos de que tenhamos sido guiados pelo Espírito de Deus. Foi, no entanto, a guia do Espírito que dirigiu Jesus para o deserto, para ser tentado por Satanás. Quando Deus nos leva à provação, tem um desígnio a realizar, para nosso bem. Jesus não presumiu das promessas de Deus, indo sem que Lhe fosse   ordenado, ao encontro da tentação, nem Se entregou ao acabrunhamento quando ela Lhe sobreveio. Tampouco o devemos nós fazer. "Fiel é Deus, que vos não deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar". Ele diz: "Oferece a Deus sacrifício de louvor, e paga ao Altíssimo os teus votos. E invoca-Me no dia da angústia: Eu te livrarei, e tu Me glorificarás".; Sal. 50:14 e 15. 
    Jesus saiu vitorioso da segunda tentação, e então Satanás se manifesta em seu verdadeiro caráter. Não se apresenta, todavia, como aquele horrível monstro de pés de cabra e asas de morcego. Embora decaído, é um poderoso anjo. Declara-se o chefe da rebelião, e o deus deste mundo. 
    Colocando Jesus sobre uma alta montanha, fez com que todos os reinos do mundo, em toda a sua glória, passassem, em vista panorâmica, diante dEle. A luz do Sol projeta-se sobre cidades cheias de templos, palácios de mármore, campos férteis e vinhas carregadas de frutos. Os vestígios do mal estavam ocultos. Os olhos de Jesus, cercados ultimamente de tanta tristeza e desolação, contemplam agora uma cena de inexcedível beleza e prosperidade. Ouve então a voz do tentador: "Dar-Te-ei a Ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero; portanto, se Tu me adorares, tudo será Teu". Luc. 4:6 e 7. 
    A missão de Cristo só se podia cumprir através de sofrimento. Achava-se diante dEle uma existência de dores, privações, lutas e morte ignominiosa. Cumpria-Lhe carregar sobre Si os pecados de todo o mundo. Tinha que sofrer a separação do amor do Pai. Ora, o tentador oferecia entregar-Lhe o poder que usurpara. Cristo poderia livrar-Se do terrível futuro mediante o reconhecimento da supremacia de Satanás. Fazer isso, porém, era renunciar à vitória no grande conflito. Fora por buscar exaltar-se acima do Filho de Deus, que Satanás pecara no Céu. Prevalecesse ele agora, e seria isso a vitória da rebelião. 
    Quando Satanás declarou a Cristo: O reino e a glória do mundo me foram entregues, e dou-os a quem quero, disse o que só em parte era verdade, e disse-o para servir a seu intuito de enganar. O domínio dele, arrebatara-o de Adão, mas este era o representante do Criador. Não era, pois, um governador independente. A Terra pertence a Deus, e Ele confiou ao Filho todas as coisas. Adão devia reinar em sujeição a Cristo. Ao atraiçoar Adão sua soberania, entregando-a às mãos de Satanás, Cristo permaneceu ainda, de direito, o Rei. Assim disse o Senhor ao rei Nabucodonosor: "O Altíssimo tem domínio sobre os reinos dos homens; e os dá a quem quer". Dan. 4:17. Satanás só pode exercer sua usurpada autoridade segundo Deus lho permita. 
    Quando o tentador ofereceu a Cristo o reino e a glória do mundo, estava propondo que Ele renunciasse à verdadeira soberania do mesmo e mantivesse domínio em sujeição a Satanás. Era este o mesmo domínio em que os judeus fundavam as esperanças. Desejavam o reino deste mundo. Houvesse Cristo consentido em oferecer-lhes tal reino, com alegria tê-Lo-iam recebido. Mas a maldição do pecado, com todas as suas misérias pesaria sobre esse reino. Cristo declarou ao tentador: "Vai-te, Satanás; porque está escrito: Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a Ele servirás". Mat. 4:10. 
    Os reinos deste mundo eram oferecidos a Cristo por aquele que se revoltara no Céu, com o fim de comprar-Lhe a homenagem aos princípios do mal; mas Ele não seria comprado; viera para estabelecer o reino da justiça, e não renunciaria a Seu desígnio. Com a mesma tentação aproxima-se Satanás dos homens, e tem aí mais êxito do que obteve com Jesus. Oferece-lhes o reino deste mundo, sob a condição de lhe reconhecerem a supremacia. Exige que sacrifiquem a integridade, desatendam à consciência, condescendam com o egoísmo. Cristo lhes pede que busquem primeiro o reino de Deus, e Sua justiça, mas o inimigo põe-se-lhes ao lado, e diz: "Seja qual for a verdade sobre a vida eterna, para conseguir êxito neste mundo, precisas servir-me. Tenho nas mãos teu bem-estar. Posso dar-te riquezas, prazeres, honra e felicidade. Dá ouvidos a meu conselho. Não te deixes levar por extravagantes idéias de honestidade ou abnegação. Prepararei o caminho adiante de ti". Assim são enganadas multidões. Consentem em viver para o serviço do próprio eu, e Satanás fica satisfeito. Enquanto os seduz com a esperança do domínio do mundo, ganha-lhes domínio sobre a alma. Oferece aquilo que não lhe pertence conceder, e que há de ser em breve dele arrebatado. Despoja-os, entretanto, fraudulosamente, de seu título à herança de filhos de Deus. 
    Satanás pôs em dúvida a filiação divina de Cristo. Na maneira por que foi sumariamente despedido, teve a irrefutável prova. A divindade irradiou através da humanidade sofredora. Satanás foi impotente para resistir à ordem. Torcendo-se de humilhação e raiva, foi forçado a retirar-se da presença do Redentor do mundo. A vitória de Cristo fora tão completa, como o tinha sido o fracasso de Adão. 
    Assim podemos resistir à tentação, e forçar Satanás a retirar-se de nós. Jesus obteve a vitória por meio da submissão e fé em Deus, e diz-nos mediante o apóstolo: "Sujeitai-vos pois a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós. Chegai-vos a Deus, e Ele Se chegará a vós". Tia. 4:7 e 8. Não nos podemos salvar do poder do tentador; ele venceu a humanidade, e quando tentamos resistir em nossa própria força, tornamo-nos presa de seus ardis; mas "torre forte é o nome do Senhor; para ela correrá o justo, e estará em alto retiro". Prov. 18:10. Satanás treme e foge diante da mais débil alma que se refugia nesse nome poderoso. 
    Havendo partido o adversário, Jesus caiu exausto por terra, cobrindo-Lhe o rosto a palidez da morte. Os anjos do Céu haviam testemunhado o conflito, contemplando seu amado Capitão enquanto passava por inexprimíveis sofrimentos para nos abrir a nós um meio de escape. Resistira à prova - prova maior do que jamais seremos chamados a suportar. Os anjos serviram então ao Filho de Deus, enquanto jazia como moribundo. Foi fortalecido com alimento, confortado com a mensagem do amor do Pai, e com a certeza de que todo o Céu triunfara com Sua vitória. Reanimado, Seu grande coração dilatou-se em simpatia para com o homem, e saiu para completar a obra que iniciara; para não descansar enquanto o inimigo não estivesse vencido, e nossa caída raça redimida. 
    Jamais poderá o preço de nossa redenção ser avaliado enquanto os remidos não estiverem com o Redentor ante o trono de Deus. Então, ao irromperem as glórias do lar eterno em nossos arrebatados sentidos, lembrar-nos-emos de que Jesus abandonou tudo isso por nós, que Ele não somente Se tornou um exilado das cortes celestiais, mas enfrentou por nós o risco da derrota e eterna perdição. Então, lançar-Lhe-emos aos pés nossas coroas, erguendo o cântico: "Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória e ações de graças." Apoc. 5:12. 
Abrazo!

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